] sábado, setembro 03, 2011
 
cachorro preto

sempre tem um cachorro preto andando do meu lado. eu já disse isso umas 15 vezes, e toda vez soa estranho. mas ocorre sempre. um cachorro preto que surge do nada e me acompanha por um breve espaço de tempo. não o mesmo cachorro preto. mas preto. não pedem nada, não me cheiram, não avançam pedindo carinho, não fazem nada além de andar do meu lado, eventualmente olhando pra mim com aquele olhar que nenhum ser humano é capaz de ignorar.

hoje foi um Rottweiler. mestiço, na real. vestia uma roupa em tons de vermelho e amarelo e laranja. e usava uma coleira. e não só me seguia como me guiava também, porque se virava a esquina na minha frente e via que eu não, voltava pro meu lado. me encontrou na saída do IAD/UFPel, quando eu estava correndo pra casa porque tinha esquecido o filme que mostraria pra turma da tarde. se despediu sutilmente na UCPel, uns 10 minutos depois. o Diogo acha que é por causa do cheiro do THX na barra da minha calça. se fosse assim, eu andaria sendo seguida por cachorros o tempo todo (isso não seria problema at all). um dia eu descubro qual a natureza desse estranho fenômeno. cachorros pretos que me acompanham de vez em quando.



cachorro branco

meu pai tinha esse cachorro branco. o Ice, um pastor canadense. tinha 14 anos. eu confesso que não simpatizava muito com ele, embora odiasse o fato de sentir isso. até porque meu sentimento era uma mágoa de um tempo em que o Ice ainda era um adolescente e, numa situação de disputa entre ele e Ancelote, o cocker spaniel ruão que eu amava tanto, quem saiu perdendo foi o cocker. sempre gostei de animais pretos, embora hoje tenha o THX, todo branquinho (não escolhi ele, simplesmente ganhei). mas não era por isso que gostava do Ancy, que tinha uma pelagem malhada onde os brancos pareciam grisalhos e o preto transparecia por debaixo. era porque o Ancy tinha boa índole. ele e a Akira (sim, Akira e fêmea. não questionem os nomes, não tenho idéia de quem pensou neles) tinham vindo pra casa depois do Baião morrer. Baião (de batismo, Átila) era o nosso fila querido, que morreu aos 14 anos de um câncer no fígado. cuidei dele na fase final da doença, quando tudo o que ele conseguia fazer ainda era chorar, pedindo que não deixassem ele morrer sozinho. quem já presenciou a agonia de um cachorro sabe do que tou falando.

mas não vi ele morrer. meu pai sempre foi o responsável pela solução final. Baião foi eutanasiado, algum tempo depois vieram a Akira e o Ancy, filhotes, lá pra casa. nunca fui muito com a cara da Akira, a cocker caramelo. mas era apaixonada pelo Ancelot, o cocker ruão de índole boa como o Baião tinha sido. muitos anos depois, quando meus pais adotaram o Ice, a briga entre o cocker ruão e o pastor canadense foi, é claro, por causa da Akira. num dia, fugindo de apanhar do Ice, saiu machucado e algum tempo depois morreu. ficamos sabendo que de infecção na bexiga, já que tinha quebrado o pênis. não teve um final longo como o do Baião, mas sofreu muito (e sem sabermos) e por isso morreu sozinho, sem estarmos do lado dele. isso me fez sentir raiva do Ice. nunca tratei mal, mas nunca fui próxima dele, o que me rendeu um remorso por muitos anos.

o "brancão", como meu pai chamava, envelheceu. como todos os cachorros grandes, teve uma doença dos ossos que fez com que não conseguisse mais andar. e aí, na minha primeira semana dando aula em Pelotas, ele piorou. eu ficaria 10 dias com meus pais. nesse período ele passou de um cachorro velho que andava mal pra um cachorro velho que não conseguia levantar do chão. e disso, pra um cachorro que passou três dias inteiros latindo. porque pedia ajuda pra não ficar sozinho. pra não morrer sozinho. eu ia passar de novo pelo mesmo processo triste. ele ia morrer em alguns dias e ia sofrer muito. eu pedi que o veterinário fizesse a eutanásia. não tinha mais como ele melhorar. não é justo. se melhorasse, demoraria um ou dois meses pra isso. e no mês seguinte, cairia por outra dessas doenças que os cachorros tem no fim de suas vidas. mas o veterinário quis tentar outras opções.

é lógico que a eutanásia nos aliviaria a todos. tiraria o peso do processo horrendo do fim do Ice. mas naquele momento, eu olhava pra ele e via que não era justo fazer ele passar por tantas horas assim de dor, de agonia. e de solidão.

muitas vezes fui pros fundos 3 ou 4 horas da manhã tentar aliviar essa solidão. saímos eu e minha mãe às 2h pra comprar algum remédio pra dor. a minha culpa de não ter feito nada mais que pudesse fazer ele ter menos dor, menos solidão, menos agonia, era enorme. mas ver aquele bichinho ali que não sabia falar mas dizia o tempo todo que estava com dor, que não queria morrer sozinho, isso foi o pior. e talvez muita gente nem entenda o que eu quero dizer, mas esses dias de agonia mudaram alguma coisa em mim. se eu estivesse bem, talvez não tivessem mudado tanto.

até que na madrugada de sábado pra domingo, dia dos pais, eu fui até os fundos e vi que ele ia morrer logo. eu tive raiva de ver ele passar por essa agonia. raiva porque é cruel "esperar pra ver como ele responde ao remédio" quando o bichinho tem 14 anos e isso vai apenas adiar a morte por mais um ou dois meses. raiva porque é cruel fazer um tratamento que demora muito tempo pra dar resultado e se sabe que o tratamento não salva o cachorro de piorar logo ali, em um ou dois meses. raiva porque não sabia como abreviar o sofrimento dele. raiva porque me senti egoísta. então eu sentei do lado dele, e a única coisa que eu pude fazer foi dizer baixo pra ele que ele podia ir, porque estávamos ali e que ele ia parar de sentir dor logo. eu rezei que ele fosse logo, porque nenhum minuto a mais de dor é justo. e ele morreu ali, na nossa frente, tendo convulsões, sentindo dor. e quando o corpo se revoltou pela última vez numa convulsão desgraçada, ele abriu bem os olhos. e aquilo tudo ali me fez sentir um ser humano de merda, um lixo de pessoa. e me deu raiva. muita, muita raiva. e culpa.

é surreal ver um corpo passando do estado de vida pro estado de nada. é surreal ver isso acontecer diante da gente. não faz diferença se é um animal ou não. e quando aqueles olhos do Ice, bem abertos, me olharam... eu nem sei dizer o quanto eu me senti UM NADA também. porque não importa as escolhas que a gente faz na vida. a gente sempre vai passar por uma situação dessas, pelo menos uma vez. e só o que importa é o quanto a gente consegue dar de conforto e diminuir a agonia de quem está indo embora. é quando a gente vê o quanto o ser humano é idiota. e burro. e pouco preparado. desculpa pros que não entendem o quanto isso pode mudar a vida de alguém só porque é um bicho morrendo. tem gente que não entende mesmo essa relação. mas quando dois olhos abrem bem antes de morrer e te fazem sentir do tamanho de um nada, a gente vê que a dor de uma morte só faz diferença, entre cachorros, gente, passarinho, etc, pra nós que estamos aqui do outro lado. a gente sente diferente de acordo com a relação que tem com os que morrem. mas toda a agonia dói igual em quem está morrendo. não importa se é cachorro ou se é gente. me senti pequena demais, inútil demais, e ridícula demais. e meu medo é que eu não tenho conseguido superar o fato de que sim, sou pequena demais mesmo.

[ Penkala ] 15:26 ] 0 comentários

 
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